Testemunha de desaparecer

Mãos rápidas. Precisas. A palavra já lhe trazia certa cada tecla para o registro de cada letra ou sinal pensado. E assim um raio passava de uma tecla para outra. Num átimo. Um dos mais rápidos num raio de trezentos quilômetros; testemunhado por funcionários de grandes empresas internacionais.
Sua vida ritmava ao som das palhetas estalando palavras ao papel, das batidas dos dedos nas teclas suavizadas ou pela troca de papel , ou pela troca da fita. Datilografar era a sua vida e o que mais amava. Pelas suas contas, ja deveria ter dado três voltas ao mundo datilografando. naquela época seus pensamentos se tornaram céleres como seus dedos.
Datilografar era a sua vida e o motivo de ter se tornado alguém, dentre os muitos deste mundo. Era o que lhe tornava a vida especial.
Como então olhar para si mesmo sem máquinas de escrever, sem aquela aparelhagem que lhe era tão cara, tão viva?
De muito não datilografava mais. Sentia-se desaparecer. E lhe era verdade. Cada suspiro demonstrava isso.
Em algumas horas desapareceria, junto com sua amada que desaparecera há anos.
Nos últimos momentos de vidas os humanos retornam às mais antigas tramas de suas memórias. E este aqui que está prestes a desaparecer não é exceção.
Seu trabalho, e o orgulho que lhe trazia, fazem parte deste caminho da memória, que como um fio vai "re-tecendo" sua trama. Lembra de lugares, nomes, pessoas. Suas mãos se responsabilizavam por documentos importantes, relatos e avisos; seu trabalho, apesar de extinto, era digno e respeitado. Pude ouvi-lo dizer: “eram dias dourados e gloriosos".
De certa forma, a palavra fazia parte do incrível conjunto de engrenagens que faziam o texto se movimentar. Uma vez percebera que a palavra era a engrenagem principal de todo o conjunto.
Um dia, inclusive, desejou ser um melhor usuário e conhecedor das letras. Nestes momentos finais se arrepende de não ter levado adiante esta empresa, pois hoje, teria de alguma forma , melhor registrado aquele tempo áureo que a humanidade passou muito rápido e não o digeriu.
Talvez, se conhecesse melhor as palavras poderia ter expressado melhor, junto com sua amada e seu incrível conjunto de engrenagens, as coisas simples que lhe conferia o prazer da datilografia. o acalanto do barulho da datilografia, o som do papel saindo, pronto "falando" o que deveria dizer, poderia ter contado aos outros como lhes eram caras estas impressões.
Lembranças que não se sentiu competente para registrar, e agora desaparecerão junto com ele.
Apenas eu, um límpido copo d’água, junto à cômoda da cama, tenho comigo seus últimos momentos, gravados numa superfície antiga de água, fácil de ler. Dito para que um outro as registre, e você leia.
A hora de juntar-se a sua profissão amada estava chegando, e começando pelas suas lágrimas , o desaparecimento iniciou. tentou buscar-me na sua cômoda, mas suas mãos já não eram: estavam transparentes, e a tristeza terminou de lhe inundar o coração. Queixou-se de não sentir mais as suas pernas, num tom rouco e choroso. Suas mãos rápidas e antigas de histórias para contar já não existiam mais. Pude ouvir , muito baixou e rouco, uma palavra de agradecimento a Deus.
Foi então que percebi que suas cobertas jaziam vazias pela cama velha e macia.
E tomado pelo nada que definia sua profissão nos dias de hoje, desaparecia assim, o mais rápido e anônimo datilografo que o mundo já conhecera.



Escrito por caiov12 às 18h58
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Não houve muito remédio. Tentei, relutei, mas vi que realmente preciso deste espaço. Sou professor, e não um literata, e nem tenho a mínima pretensão de sê-lo.
Quero apenas me comunicar. E espero conseguir
A você que me visita , eu o saúdo e agradeço desde já sua visita. Deixe-me seu blog para que eu possa lê-lo também.
Se você , assim como eu, tem um coração com essa sede, esse desejo de escrever, a ponto de te inquietar então mantenha contato. Leia-me e eu o lerei com prazer.
Não quero que as letras me deixem só sem a companhia de vocês. Não há pensamento na solidão, nem verdade num cubículo fechado. Fomos feitos para estarmos em grupo. Então façamo-lo!

Escrito por caiov12 às 23h59
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